Cineclube Mate com Angu

O cinema como o conhecemos hoje é fruto de experiências doidas, marcadas ao longo da história da humanidade e que culminaram naquela loucura que foi a invenção do cinematógrafo, finalizado pelos irmãos Lumière. Aparelho que logo em seus primeiros meses de vida já aportou no Brasil, cheio de graça e predestinação. Daí que o mundo nunca mais foi o mesmo. A luz, um fenômeno físico, transou com a química e passou a revelar mais do que a imagem do ser humano em movimento, mas todo o imaginário do fundo da alma. O olhar passou a ser a janela para mundos infinitos.

E a película reinou absoluta por um século.

Mas, e hoje com o digital virando o padrão de filmagem e exibição? Dá pra ter a mesma magia físico-química de captação da vida através da lente analógica?

Quando a Kodak anunciou o fim da linha de produção dos rolos de filmes uma mudança significativa se sentiu no Cinema enquanto Arte, atingindo em cheio corações dos saudosos e dos tradicionalistas que acreditam que a película é inimitável. E muitas incertezas surgiram e ainda estão pintando, principalmente quando se tenta o exercício cabuloso de prever o que será o mercado do Cinema no futuro. Um futuro em que o projecionista talvez apenas acompanhe os filmes chegando nas salas via satélite – se a profissão existir…

O fato é que apesar de cada um de nós ter sua camerazinha digital no bolso ou na mochila a experiência da película mágica ainda encanta e a noite de hoje é um elogio a toda a magia acumulada em mais de um século de rolos exibidos.

E é uma homenagem a tantas coisas boas proporcionadas ao longo de décadas, como os malucos que levavam projeções pelos rincões do país; os cinemas de bairro que muitas vezes eram as únicas opões de programa cultural para muita gente – salas essas que viraram tempos religiosos ou grandes lojas de departamentos.

A noite de hoje tem gosto de Trapalhões, Bruce Lee, Cine Paz, Mazzaropi, Chaplin, Cinema Novo, pornochanchada e filmes de karatê, daqueles que faziam as pessoas saíram das salas dando osotogaris pra todo o lado…

E fica essa intuição sacada de que o espaço da película hoje é como um laboratório; o analógico como arte, artesanal, arte tesão. O filme em película é agora cada vez mais algo como a alquimia, com seus mistérios e encantamentos – e o inconfundível barulhinho tec-tec-tec-tec…

Que o digital nosso de cada dia possa cada vez mais fazer bater essa onda boa, gostosa e desafiante.

 

Abraços analógicos,

Cineclube Mate Com Angu

cinema para uma melhor digestão

Luciana Bezerra foi mais uma das entrevistas que o Mate com Angu fez para a Sessão Catapulta – Uma Odisseia de filmes. Diretora premiada e atriz talentosa, levou o Vidigal pra Cannes, no 5X Favela.
Agora todos estão ansiosos pela sua nova aventura nas matas de Maricá

Do Vidigal pra Cannes

MCA – Oi!

Luciana Bezerra – Oi

Agora é um bom momento?
Mas juro que nem tomo tanto seu tempo assim.

Ok. vamo lá.

E aí Luciana Bezerra, se apresenta pra gente um pouco.

Ai meu Deus! Como no meu PC velho e capenga copiar e colar rápido uma biografia?

Não precisa ser uma biografia…
Só pra gente saber que anda fazendo por aí.

Sou Carioca, nasci na Rocinha, morei uns anos em Maricá não na praia, na serra, bem roça. Aos 9 vim para o Vidigal onde aos 18 anos comecei a estudar para ser atriz em um grupo de teatro.

Ai nele fazendo aulas de cinema descobri que era apaixonada por escrever e contar historias e passei a me dedicar mais a esse trabalho.

Os Donos da Mata tem alguma coisa haver com essa infância na roça?

Meu primeiro curta MINA DE FÉ teve uma muito boa recepção entre críticos e amantes de cinema. Ganhei torcida. Mas fiquei muito tempo sem filmar. O Mina foi produzido com o prêmio de roteiro para realização RIOFILME. Fiz alguns filmes em MiniDV, que deram certo também. Como Hércules – é uma luta danada. Esse vale a pena exibir em uma sessão de vale a pena ver de novo. Depois fiz o Acende a Luz, que tenho muito orgulho. Aí veio OS DONOS DA MATA que foi produzido com prêmio do MINC para cinema infantil.

Tenho trabalhado para que essa turma que aparece no filme viva outras aventuras ou uma aventura maior. Talvez um longa infanto juvenil. Tenho outras histórias com a mesma turma.

Mas ele já nasceu como um projeto maior ou você foi desenvolvendo a partir do curta?

Não, na verdade ele são curtas com os mesmo personagens. Surgiram até em épocas diferentes, mas a turma é a mesma.

E onde foi essa Mata? Pra onde você levou essa turma pra filmar?

A mata na verdade é um sítio abandonado em Maricá. Atrás do sítio havia um Rio e muito espaço de matagal, mais capim, mas por serem crianças facilitou, pelo tamanho. Um campo de futebol abandonado, vira mata.

Você comentou que seu último filme foi o Acende a Luz.
Uma pergunta meio óbvia, mas qual é a diferença de fazer uma produção daquela proporção de uma produção com orçamento mais apertado?

A diferença é a solução que vai dar para cada coisa acontecer. Eu tinha um filme onde era preciso está escuro na imagem, mas não se capta imagem sem luz. E grana=tecnologia.
Fez isso acontecer no Acende a Luz, que é um curta com problemas de longa. Jamais seria feito com a grana de edital.

Mas eu Fiz os Donos, sabendo que não seria fácil, era um filme-viagem-aventura. E foi feito, mas muito mais demorado. Levei um ano e 1 mês para entregar após filmado. Por um outro lado gosto de ver minha massa no forno por um tempo. Faz bem pro filme.

“eu gosto de muita gente em cena. Gosto de ver isso, acho que é porque moro a muito tempo em um lugar muito populoso.”

Pegando mais um gancho com o Acende a Luz, nele você tinha um elenco enorme e agora trabalhando com crianças no Donos da Mata. O que é mais fácil lidar com um grupo grande ou dar conta das crianças?

Nada é fácil. Gente não é fácil. Mas eu gosto de muita gente em cena. Gosto de ver isso, acho que é porque moro a muito tempo em um lugar muito populoso. Então gosto de ver gente. As crianças eram 10, viraram 7 e 13 na cena final depois de muito papo com a Assistente de direção e Produção. Mas eu gosto do trabalho em grupo e gosto muito de muitos personagens. Mas tenho tentado realizar com um grupo de amigos um curta com apenas 2 personagens. é difícil pra mim. começo a querer, colocar um amigo e tal.

Coração de mãe…

Bem típico de mim. Muito amigos atores pedindo papel. Essas coisas.

Você também é atriz, isso te ajuda como na hora de dirigir?

Acho que já ter sido dirigida, me fez experimentar vários tipos de diretores e pensar onde mais me encaixo. Também a convivência íntima com os atores de igual para igual me leva na hora de dirigir a ter tato e perceber bem que tipo ele é e como devo agir com essa ou aquela pessoa.

Acho que ter experiência como atriz me ajuda mesmo a criar cenas.

É a experiência de atriz com a vontade de contar histórias…
E falando nisso, pretende voltar a fazer alguma coisa como atriz?

Sempre pretendo. Esse ano estava na tela em pequenas cenas no Édém do Bruno Safadi e no Noite de Reis de Vinícius Reis. Para Safadi fiz uma obreira da igreja, com tuníca e direito a pregação sem aviso de filmagem no SAARA, foi ótimo. E Para Vinícius Lili, ainda não vi o filme, mas não dá para fazer algo muito longo, nem em teatro. Por enquanto.

Pra encerrar…
Os Donos da Mata vai mexer com nossas crianças interiores?

Eu espero que sim. As sessões que vi percebi que pais e filhos curtiram. Mexe muito comigo, porque se acreditarem posso dizer que vivi aquela aventura e muitas outras com meus primos. E esses são Xerém o caçula (na real eu) e seus primos  meus). Espero que gostem de conhecê-los.

A primeira vez que vi o filme inteiro, prontinho, foi como um sonho e foi também como ver um filme de uma lembrança da minha infância.

Então vamos ver bastante da Luciana nas telas?

Totalmente, a irmã maior que tem o menor sob sua responsabilidades, crianças soltas sem adultos, a fralda, o rito de passagem para entrar naquela turma, ser aceito, muita coisa.

As bicicletas!!!!

A reza!

Que maravilha!
Lu, foi um prazer ter esse bate papo com você.
Que Os Donos da Mata tenha uma grande aventura!

Amém! E que o mate tenha muitas e muitas sessões catapulta!

beijo.

Merci

Os Donos da Mata

Ficha Técnica:

Roteiro, Direção e Produção Executiva: Luciana Bezerra
Direção de Produção: Sheila Santos
Produção: José Mario Farias
Assistente de Produção: Joanna Costa
Produção Local: Jessy Ramos, Jesiléia Braga e Marco Antônio
1ª Assistente de Direção: Manuelle Rosa
2ª Assistente de Direção e Continuísta: Magá Cavalcante
Diretor de Fotografia: André Lavaquial
1º Assistente de Fotografia e Storyboard: Bruno Diel
2º Assistente de Fotografia e Câmera Adicional: Arthur Sherman
Steadycam: Roberto Thome
Câmera subaquática: Bruno Leão
Direção de Arte: Wendel Barros
Figurino: Gorete Bezerra e Marcio Lopes
Técnico de Som: Vampiro
Microfonista: Lucas Silveira
Efeitos Especiais: Equipe M
Montagem e Finalização: Aléssio Slossel
Gráfica e efeitos visuais: Aléssio Slossel
Trilha Original: Stanley Zvaig e Marcello Nunes
Eletricista: Marreta
Maquinista: Arley
Transporte: Rafaela Transortes/Paulo/Mineiro/Leandro/Elias
Cozinheiras: Maria Augusta/Rosana Braga/Ana Marcia Braga/Jesilene Braga
Boy de set: Victor Braga/Matheus Braga
Imagem aérea: VídeoDrone

Elenco

Guilherme Soares
João Pacífico
Larissa Henrique
Gabrielly da Paixão
Clara Polessa
Eduardo Ribeiro
Joana Braga

Uma noite dedicada à aventura!

Nem toda a alta tecnologia disponível neste planeta de meu-deus é capaz de prever com exatidão total as possíveis trajetórias de um objeto lançado ao espaço. Se nem Barbarela, nossa incansável heroína, foi capaz de fazê-lo, como poderíamos nós, pobres mortais realizar tal tarefa? A pergunta na verdade é outra: queremos ter esse controle? Lançar algo é como atirar a si mesmo numa aventura.

Sempre atrás de respostas e cheio de interrogações passamos a vida buscando a luz no fim túnel, o momento revelador, a epifania suprema e esquecemos que o mais importante é só aproveitar a viagem. Já dizia o tal do Tao: “O caminho é a meta”.

Navegar é preciso, viver não é preciso, diria Fernando Pessoa para um astuto Capitão Kirk do passado. É com essa falta de precisão que nos aventuramos pela vida, a única bússola que temos é o coração e se ela aponta pra direção errada, talvez seja você que esteja errado.

Somos mais quando fazemos aquilo que amamos. E nessa aventura há os segredos da massa, coisa fina, coisa simples e de tão pueril é difícil medir e impossível armazenar. E só botando a mão na massa é que se encontra esses segredos que fazem da vida muito mais do que tentam nos vender em cada esquina.

Mas conforme envelhecemos é preciso cuidado pra não endurecer, pra não ficar frio ou soturno. A desconfiança de que cavucando ali nada de novo vai sair, pode dominar nosso espírito. E quando encontrarmos algo intrigante, uma flor no cotidiano, podemos sair correndo para o sofá mais próximo. Afinal, é o último capítulo da novela.

Mas o que nos intriga também pode ser  gatilho para nos levar por aí no sabor da brisa e da tempestade, rumo ao norte, sem perder o flow e o rebolado, chegando ao filme na tela, ao canto no espaço, ao filho no berço.

Nossa alma não é pequena.

A vida não é para se levar com a barriga, no bora-bora. Essa vida é para se ter cuidado, apreço e amor.  É preciso afagar o dia-a-dia com atos de valor. Para expandir os espaços, arejar a mente, destrancar o coração e deixar-se correr pela estepe. E o uivo correu a madrugada, você ouviu? Ouviu? Preste atenção… Lá no fundo…

Carpe Diem.

Cineclube Mate Com Angu
Indo audaciosamente onde…

Reza a mais nova lenda do cinema independente carioca que um grande mestre viu Senhorita Fotografia e se surpreendeu. Ficou ali viajando um tempo para dizer algo do tipo “Achei que não veria mais nada de novo no quadro. Isso é coisa nova.” –  Senhorita Fotografia é um curta do coletivo constelar ETA AQUARÍDEA. Misturando dança, sonho e fotografia, esse belo filme promete mexer com os corações dos incautos cinéfilos. Mais uma estréia linda, mais um filme que o Mate tem orgulho de lançar em sua Sessão Catapulta 2012.

still de “Senhorita Fotografia”
Gravidade Zero, respiração em suspensão.

Daqui a 150 anos “Srta Fotografia” vai ser lembrado como o filme que revolucionou o quadro?

Será lembrado pelos nossos netos como o primeiro filme do Eta Aquarídea. O tempo reinventa as revoluções, o que será Eta Aquarídea daqui a 150 anos perpassa a nossa intuição. No presente a busca é ir além do quadro.

Como Srta Fotografia Nasceu? Havia um roteiro? Ou o filme aconteceu nos ensaios do Eta Aquaridea?

Queríamos muito retribuir a inspiração da bela música feita pelo nosso amigo Augusto Malboisson. Filmamos sem roteiro, sem ensaio, imbuídos da música. Fruto de um desses encontros catárticos eta aquarídeanos propícios a transmutar as partículas do entorno em sonho.

Um filme é algo que pode dançar? Uma câmera pode dançar? Me parece que a distancia entre cineastros e câmera cada dia diminui mais, eles vão se transformar na mesma coisa?

Queremos diluir fronteiras, as nossas próprias, as que existem entre as artes, entre sonho e realidade. Tudo é movimento, no cinema “a dança da luz” a câmera é a extensão do corpo, não existe distanciamento mas sim coesão.

No filme há uma reciclagem de imagens antigas. de onde elas vieram? Em tempo de poluição visual, resignificar velhas imagens é ter uma atitute ambiental?

É um exercício de usar todo o substrato das imagens e sons e também seu lixo. Dessa forma pode-se até falar em uma atitude ambiental. De uma maneira ou de outra estamos falando em digerir imagens dadas virando suas belezas do avesso.

Qual a expectativa em relação ao filme? Ele esta nascendo, ganhando o mundo. Um filme é como um filho?

Tocar o olhar. Trocar de lugar. Inspirar. O filme é nosso apenas durante a gestação depois disso ele é do mundo, tem vida própria.

Deixem um alô pro povo do mate. pra noite da sessão.

Bora pro mate catapultar estrelas!

Still de Senhorita Fotografia
Mariana Bley dança no espaço sideral

Cris Miranda – a kino-bruxa do Largo do Machado. Ela vai te encantar.

Cris Miranda chegou em nossos corações primeiramente através de seu lindo sorriso, alargando a existencia nos espaços. Depois foi mostrando seus filmes. Lindos. Nas telas e no modo de fazer. Usando latas vencidas e revelando em sua banheira, essa kino-bruxa do Largo do Machado vai fazendo cinema como se faz um delicioso café da manhã. Com os sonhos ainda persistindo no dia que vem por ai.

Ela vai lançar quarta “Maça com Sabor de Gasolina”. Um lindo filme que lança um olhar sobre heróis que teimam em se esconder em nosso cotidiano.

Mate Com Angu: Vou pedir pra você se apresentar…

Cris Miranda: Sou fotógrafa e cineasta.  Comecei minha aventura na arte pela poesia, que até hoje é meu principal combustível.

Mate Com Angu: Quais são suas referências? da poesia ao cinema. Quem te inspirou?

Cris Miranda:  Edgar Allan Poe, Paulo Leminski, Stan Brackage, Ozualdo Candeias, Mojica, Mario Peixoto.

Mate Com Angu:  Galera Boa. Malditos & Marginais. O que te atrai neles?

Cris Miranda:  Apotência poética, a coragem, a imaginação, a audácia, o talento.

MCA:  Vou colocar uma palavra nesse balaio. O “risco” de estar na frente abrindo uma picada, desbravando a floresta da estética. O seu cinema também parece se balançar no picadeiro, sem rede. Não pede a rede poída de todas as convenções que se criou para o cinema. essa arte industrial…

Cris Miranda: Sim, o risco é fundamental, por isso faço questão de riscar as imagens, para expressar esse perigo luminoso que é a arte, incisão e paixão.

MCA:O futuro do cinema será menos careta?

Cris Miranda: Menos careta? Espero que sim! Hoje todo mundo filma, estamos num tremendo workshop mundial de fotografia e video. Isso que pode parecer uma banalização, pode ser também um mergulho que nossa cultura está dando nessa poderosa linguagem que é o cinema.  Estamos todos reaprendendo a lidar com a imagem, algo de muito incrível pode vir daí. todos saberemos, filmar e editar, saberemos como transformar os significados com a imagem em movimento…de alguma forma uma nova poética virá desta enorme democratização dos instrumentos da imagem.

MCA: O seu processo lembra a de um alquimista; ou de uma cozinheira. Revelando um negativo na banheira, botando “temperos”, esperando dar caldo. Tem algo de místico ai? Ou é só brincar com o acaso?

Cris Miranda:  É uma alquimia de cozinha sim, tão místico quanto fazer café de manhã. Esperar a imagem atravessar seu percurso no escuro, para reencontra-la nos pequenos retângulos da película. Já outra coisa daquilo que vi, já com seu próprio desejo, seu próprio mistério.  É brincar com o acaso também, solicita-lo no seu gigantismo de significados.

Still de Maça com Cheiro de Gasolina

MCA: Fale sobre “Maça com gosto de Gasolina” O que te levou a fazer o filme?

Cris Miranda: Quando voltei do méxico percebi que passava sempre por uma estátua do Cuahutemoc, sem saber o que isso significava, era apenas mais uma estatua anônima das praças da cidade.

Cris Miranda:  Depois de ter morado no méxico descobri que aquela estátua era uma homenagem ao último herói asteca, um jovem que lutou com Cortez. Fiquei curiosa de conhecer onde estariam as outras estátuas de nossos heróis da libertação latino americana. Então descobri a estatua do Bolivar, escondida numa mini praça em frente a um shoping center. O filme é uma homenagem a esses heróis. E um caminho atento pelas ruas da cidade do Rio, buscando os segredos escondidos naquilo que não conseguimos separar do caos urbano.

MCA:E o olhar nesse caminho é o dos grafiteiros. porque? A escolha deles como personagens se deu como?

Cris Miranda: Sim esse é o olhar dos grafiteiros, essa é a postura do grafite: se misturar com aquilo que some no caos e retornar com outro significado, outra impressão da cidade. Uma apropriação da rua como um espaço nosso, que ocupamos e resignificamos.

A estátua de Cuauhtémoc na Cidade do México – México.

MCA: A câmera 16mm, usada no filme, da Fevereiro Filmes, do brother Márcio Melges, pode contar um pouco da história no cine independente carioca. Ah, se ela falasse… Por que filmar em 16mm?

Cris Miranda: Porque é lindo!:-)

MCA: Você acha que podem parar de fabricar?

Cris Miranda: É possível.  Por enquanto estamos usando.  Por que pensar no futuro?

MCA: Mesmo com a data vencida…

Cris Miranda:Isso!!

MCA: Mas… falando em futuro. Qual a expectativa pra sessão? Você que já exibiu filme lá, qual é o sabor de uma sessão mate com angu?

Cris Miranda: É maravilhoso! As sessões do mate são sempre as melhores sessões!  Um luxo poder mostrar um filme na Catapulta. É a melhor garantia para se sentir vivo de verdade.

MCA:  A gente fica super honrado. É a mistura de todos nós que faz o caldo engrossar. Obrigado pela entrevista e por existir.

Cris Miranda: Valeu!!!! É nós voando! como diz o josi*….

Simón Bolívar Vive!

*Josinaldo Medeiros – Mateano

Continuando a série de entrevistas sobre os filmes que estarão na sessão Catapulta 2012. Dessa vez é o mateano Xavi, diretamente das Oropa, mandando seu recado sobre o clipe Zenit, dirigido pelo chapa Emílio Domingues.

MATE COM ANGU: e aí?

JOãO XAVI: opa!

MCA: então… quarta-feira é a sessão catapulta e teu clipe pelo que to sabendo ainda está na ilha de edição. né?

XAVI:  bom, eu espero que já esteja na ilha pronto, mas, se bem conheço, só na quarta mesmo. hehehe

MCA:  tem um video nosso, de 2009, onde a galera aparece editando três ou quatro filmes na véspera da estreia na sessão catapulta… essa tensão faz parte?

XAVI: acho que o papel da catapulta é um pouco esse mesmo: forcar neguinho a terminar coisas. dar um deadline, sabe?

MCA: mas… diz aí, qual é do clipe? a banda é tua? vc só dirigiu? me explica um pouco…

XAVI:  bom, nao é uma banda. sou eu.

eu canto rap, já há alguns anos. o clipe foi dirigido pelo Emilio Domingos, do l.a.p.a e recentemente fez a batalha do passinho. e tá sendo montado pelo Josi (Josinaldo Medeiros).

MCA: ZENIT, é o nome da música. e do que fala o som?

XAVI:  entao, além de mexer com música, e outras mil coisas, eu sou fotógrafo.

e comecei a fotografar em analógica com uma camera russa da marca zenit.

conhece essa camera?

MCA: particularmente, eu sou um fotografo da era digital; e tenho uma péssima memória para nomes. rs, mas tenho uma idea da fama das maquinas desse canto do mundo…

XAVI:  pois é

essa camera é quase um fetiche, assim como a fotografia analógica acabou virando né? eu estive uma vez em Praga e descobri uma loja incrível de cameras analógicas.

uma loja de família, trabalhavam o pai, a mae e a filha…

MCA:  interrompendo – pera ai, deixa eu entender… as fotos da zenit, tão no clipe?

XAVI:  nao… mas a música é sobre a câmera. a câmera é a musa

MCA: que ótimo! adorei!

e como foi o trabalho do Emilio pra traduzir esse sentimento em imagens?

XAVI:  a gente pensou o roteiro juntos. que seria basicamente um dia de passeio pelo centro do rio, com a câmera, fotografando… dai o clipe é meio voyer tb… é a câmera me observando fotografar

MCA:  como o clipe ta na ilha… eu acabei não vendo e não tinha nenhuma ideia do que vai ser…

XAVI:  hehehe nem eu sei muito bem como vai ser…

mas é uma coisa meio narrativa, assim como a música. o cara fica com tesäo de fotografar, bota o filme na camera e vai pra rua… é basicamente isso

MCA:  e isso, de alguma forma tem a ver com o que vc ta fazendo ai em Berlin? colocou filme na camera e foi pra rua?

XAVI:  humm nao sei se tem a ver com Berlin em específico. mas, tem a ver com a minha relacao com a cidade. eu amo cidades. sou muito urbano. grande parte da minha fotografia é voltada pra cenas do cotidiano urbano. Berlin é minha bola da vez, a musa da situacao. mas o clipe mesmo, por exemplo, foi feito todo no centro do rio. que também é lindo e inspira imagens e situacoes otimas

MCA: e vai estrear em caxias… mas, voce não vai estar na sessão. quer aproveitar pra mandar um beijo pra alguém?

XAVI: pra todas as formigas, claro! e em especial pra Taiane, que foi a fotógrafa do clipe.

MCA: acho que foi, hein… pra não ficar muito grande! por favor, suas considerações finais:

XAVI:  entao, ainda na seara dos agradecimentos, queria citar a galera da Audio Rebel, onde eu gravei a música. o Emílio, que doou um pouco do seu tempo pra tocar essa direção e o Alexandre Basa que mixou a parada com carinho.

MCA: ce tem a ficha técnica completa ai com vc? me manda por email pra gente listar todo mundo.

XAVI: e vamo que vamo, lançamento mundial na catapulta pra alçancar outros planetas!

mando sim

MCA: para o alto e avante!

XAVI:  genau! como dizem os alemaes hehehe

isso ai!

FICHA TÉCNICA Zenit, João Xavi e Emilio Domingos.

vídeo:

direção: emílio domingos

roteiro: emílio domingos e joão xavi

fotografia: taiane linhares e felipe drehmer

edição: josinaldo medeiros

música:

letra e música: joão xavi

gravado na audio rebel, rj

mixado por alexandre basa, sp

zenit - joão xavi

zenit - joão xavi -

O Cineclube vai entrevistar os diretores que vão lançar filmes na Sessão Catapulta, do dia 31 de outubro. O primeiro entrevistado é Lucas Sá, maranhense de São Luís, 20 anos, dirige e produz curtas de terror. Esta no 4º semestre do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Vai lançar na Sessão Catapulta o seu mais recente filme, “O Membro Decaído”.

MCA – Maranhense… É verdade que a coca-cola comprou jesus? o Guaraná Jesus.

Lucas – Comprou, só que só podem comercializar no Maranhão eu acho.

MCA – Membro Decaído, de onde veio a idéia?

Lucas – A ideia nasceu de uma história que meu tio de Salvador me contou no começo de 2011, se não me engano aconteceu com o primo dele. Ele me contou o fato que move o curta em uma viagem para Cachoeira, ia fazer minha matricula em cinema na universidade de lá antes de saber que tinha passado no mesmo curso na UFPEL no RS. Ele me contou e de imediato anotei em um papel a base do roteiro. Há uns dias atrás encontrei esse papel até, tem idéias soltas sobre o curta.

MCA – Então é uma história baseada em fatos reais?

Lucas – Sim, mas o contexto no curta é bem diferente. Eu enfeitei bastante a história original, coloquei lugares e situações que me interessavam narrativamente, e sobretudo, estéticamente. O que tem de “real” na história é a ação principal do roteiro. Eu até pensei em colocar no fim dos créditos que o filme era baseado em fatos reais, mas eu interferi tanto que seria injusto.

MCA – Fale sobre a câmera nunca mostrar o rosto dos atores. Os personagens são braços, pernas, mãos…

Lucas – O que a câmera iria mostra e como ela ia mostrar era o que mais me preocupava na realização. Eu fui escrevendo o roteiro pensando mais por imagens que combinadas com ações iam criando uma linha narrativa coerente com as conseqüências finais. As “ações” no filme são os personagens, aliado com a locação em que essas ações acontecem. Com esse pensamento de que o que importava no filme eram as ações eu fui reduzindo e aproximando a câmera cada vez mais dos membros dos atores, como pernas e mãos. Isso foi tornando o filme cada vez mais frio e mecânico, a cabeça, o membro que carrega maior sentimento de dramatização já não importava mais pra mim.

Sangue de ótima qualidade.

MCA – O cotidiano, a janela do carro, o som da radio, as musicas – também são personagens? “Membro” também me parece um filme sobre a apatia que pode ser o cotidiano…

Lucas – A fotografia do filme é bem rígida e fixa, o tom mecânico que havia comentando já vem trazendo essa ideia. Mas creio que essas imagens que citou fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas, essa comunicação de rotina com quem vê o filme era importante para criar a sensação de que o fato motor do curta é algo comum e que pode acontecer a qualquer momento, uma violência urbana imediata. Os planos do supermercado e os da geladeira também se encaixam nesse conceito de apatia rotineira, são ações repetitivas e aparentemente vazias.

MCA – Em contra-partida, tem a menina voando, numa imagem de liberdade e juventude. Ela me parece uma heroína. Como se esse cotidiano massante, sufocasse uma idéia de liberdade… viajei muito?

Lucas – hahaha viajou um pouco. … A personagem feminina da moto eu criei pensando em uma mulher jovem que se entrega a vários homens, o homem que pilota a moto é um deles, que logo mais pode ser trocado por outro. Talvez essa falsa liberdade (puramente sexual) esteja nisso, no conceito cafona de mulher. Resumindo ela é uma puta livre da cidade, das vingativas!!!

MCA – Mas quem vê o filme, num dá pra entender isso… ela é uma heroína de um frame praticamente. 🙂

Lucas – hahaha – Sim sim, é que ela bem como pano de fundo.

MCA – Sim. ela me parece uma heroína que mata os boçais.

Lucas –  Sim. Bem isso, hahaha –  Uma Femme Fatale desmembrada. Bem no estilo Tarantino, no A Prova de Morte. E meio Dario Argento na parte da arma, uma navalha.

MCA – O sangue é muito bem feito por sinal.

Lucas – Tive cuidado. Aprendi a receita.

Heroína de um frame.

MCA – E o terror no Brasil? Dá samba?

Lucas – Da Sambá sim! O horror nacional está crescendo um monte nos dois últimos anos, e vejo que tem dois lados dele, o horror trash que é acompanhado pelo o Rodrigo Aragão com o Mangue Negro e o A Noito do Chupacabras, junto com Joel Caetano, Felipe M. Guerra e o Petter Baiestorf. E o horror mais intimista e conceitual da Juliana Rojas e Marco Dutra. Não sei se é valido mas posso dizer que tem até mesmo um pouco de horror mais experimental com a forma, como “Nervo Craniano Zero” e “Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos” do curitibano Paulo Biscaia Filho, que utiliza o palco de teatro como cenário para o horror. Em todos essas formas o horror nacional é massa! bem massa! =D

MCA – Também acho que esse angu sai nutritivo. “Mangue Negro” ganhou o Angu de Ouro especial ano passado. O filme impactou a platéia. Foi histórico. Foi foda. Um filme como Mangue Negrou não faria muito sucesso no cinema de circuito? Até quando o terror no Brasil vai ficar no circuito alternativo?

Lucas – Não sei se faria sucesso, talvez pelo fato de não saber como o público reagiria com o filme, a última tentativa de colocar o horror nacional de raiz no mercado foi com o último filme do Mojica, Encarnação do Demônio, não sei como o filme foi na bilheteria e de crítica, mas acho que é preciso investir mais, não deixa de ser um risco o dinheiro envolvido na distribuição em grande escala. Hoje o cinema de horror nacional se encontra mais nos festivais, e esses estão abrindo cada vez mais espaço e possibilidades de criação em cima do gênero. Pensando bem, vejo o clima de horror e violência até mesmo no “O Som ao Redor” do Kleber Mendonça Filho (Ganhou o Festival do Rio), vi o filme em Gramado. O clima de tensão e violência urbana estavam em grande parte dos filmes da programação, principalmente na Mostra Gaúcha. Fiquei bem feliz, com o que talvez seja uma tendência da nova produção brasileira.

MCA – Ótimas notícias. Estamos precisando de um cinema mais fabular. E parece que essa demanda esta no ar. É isso brou. Manda um alô pro público do Mate pra fechar.

Lucas – Opa! Espero que gostem do “O Membro Decaído”, um filme pequeno mas que até agora tem me deixado com um sorrisão na cara! E obrigado ao Mate com Angu pela exibição ai no Rio! Um dos estados que acolheu o filme quando ele ainda era só pepel e ideias. (O Membro Decaído foi selecionado para a oficina de roteiro do festival do rio em 2011).

Trailer de O Membro Decaído, de Lucas Sá

O Membro Decaído

Ano de produção:2012

Diretor:Lucas Sá

Categoria:Ficção

Formato da cópia de exibição:Vídeo H264

Som:Stereo

Cor:Colorido

Janela:16:9

Duração: 17m 30seg

Sinopse: Não, nós prometemos não chorar.

Roteiro:Lucas Sá

Direção:Lucas Sá

Produtor executivo:Rayssa Ewerton e Lucas Sá

Produtor:Rayssa Ewerton e Lucas Sá

Fotografia:Lucas Sá e Airton Rener

Montagem:Lucas Mendonça

Trilha sonora:Lucas Sá

Direção de arte: Rayssa Ewerton e Lucas Sá

Elenco: Gabriel Coelho, Laura Sá, Verbena Régina, João Marcus, Seu Mingau, Guilherme Borges, Gabriel Magalhães

Produtora:MOOD Filmes

Matwitter

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